ARTIGO - A propósito de chefes, líderes e visionários

Steve Jobs passou para a história como líder brilhante, mas um chefe difícil e agressivo. Talvez tenhamos algo a aprender com ele.

Jobs: um líder surpreendente

 

Quando escrevi este artigo pela primeira vez, no início de 2009, Steve Jobs estava sendo afastado da direção da Apple em função de uma doença terminal, o que ocupou os noticiários e preocupou os fãs e os acionistas. Era uma drama pessoal, organizacional e uma ameaça àquilo que havíamos aprendido a chamar de inovação de verdade. 

 

Mas me ocorreu um desejo irrefreável de aproveitar a oportunidade e aprofundar alguns aspectos da liderança deste personagem que marcou a história da tecnologia e do mundo empresarial com sua genialidade.

 

As pessoas que, como eu, ganham a vida discutindo, ensinando e promovendo a questão da liderança, sempre se sentiram um pouco confusas com as informações sobre o estilo de liderar de Steve Jobs. A maneira agressiva de gerenciar sua empresa há tempos vinha sendo comentada e explorada publicamente, inclusive no cinema (o filme Piratas da Informática foi um dos primeiros a tratar do assunto). As notícias e comentários dão conta de uma pessoa tirana, egocêntrica, que se apropria de ideias de seus mais próximos colaboradores e os humilha publicamente. O assunto não era novidade e já estava enriquecendo os advogados envolvidos nos processos de assédio moral. O que causava estranheza era imaginar uma pessoa intratável como Jobs ser o responsável por construir - e depois recuperar de uma quase derrocada - uma empresa admirada como a  Apple. 

 

Não estamos falando de gerenciar meia dúzia de pessoas, nem de administrar times medíocres e inseguros, que se sujeitariam a este tipo de tratamento por sentirem-se sem alternativa. O caso aqui é bem outro: uma empresa coalhada de pessoas talentosas, jovens, criativas, construindo uma organização desejada e admirada, que mudou o mundo. É aquela história: enganar alguns por pouco tempo até que dá, mas muitos por muito tempo... Onde estaria o segredo de Jobs?

 

O que pesa ao aceitar conviver com pessoas difíceis?

 

Os materialistas diriam que tudo se resume a pagar bem e oferecer benefícios atraentes. Não disponho de dados a respeito da Apple e não posso discordar. Porém, ainda assim, não acredito que dinheiro daria conta sozinho do recado. Permito-me imaginar outras razões e buscar dicas para desvendar os segredos da liderança aqui vislumbrada. Se liderança se conquista dos liderados por mérito, Jobs deveria ter atrativos que compensariam os pontos negativos.

 

Em primeiro lugar, mas não a minha aposta mais forte, aceito a hipótese de que sucesso atrai bajuladores. É uma boa hipótese, já que todos adorariam colocar em seus currículos, ou contar na roda de amigos, que compartilharam da presença do gênio.

 

Há também aqueles que se sujeitariam pela simples honra de ver o futuro sendo definido bem diante de si, testemunhas oculares da história. A genialidade, em estado bruto, sendo destilada, lapidada, até se transformar em ícones da tecnologia. Dizem que Leonardo  da Vinci era um sujeito amável e dócil. Mas e se não fosse? Quantos se privariam da sua presença se ele fosse um casca-grossa?

 

Liderança é Confiança

 

Costuma-se atribuir à confiança um dos principais pilares da liderança; ninguém aceitaria uma pessoa como líder sem estar no mínimo confiante de seus méritos. Mas que aspectos da construção da confiança estão presentes aqui? 

 

Costumo utilizar o modelo com quatro pilares para a construção da confiança: Competência,  Responsabilidade, Ética e Respeito. Admitindo como verdadeiras as histórias contadas sobre ele, Jobs perdia feio nos dois últimos (Ética e Respeito). E é aí que entra a minha melhor hipótese: Jobs era seguido porque demonstrou competência diversas vezes, construindo um caminho de sucesso onde outros só encontraram incertezas e caos.

 

Para compreender isto, temos que olhar com frieza para o mundo dos avanços da informática e da eletrônica. O que vemos é um verdadeiro tsunami de novos aparelhos, softwares, conceitos e tecnologias que, na sua maioria, acabam só fazendo sucesso nas matérias de revista. E isso não é de hoje. Para citar apenas um exemplo clássico, o padrão de vídeo Betamax da Sony, superior ao VHS, perdeu a corrida do mercado. É um mundo hostil, mas no qual Jobs circulou com muita desenvoltura. Posso imaginar a aura visionária deste interessante personagem e a segurança que ele transmitia ao dizer "Vamos! O futuro é por ali!". Para aqueles que vivem, trabalham e dependem do mundo dos bites e bytes, ter uma bússola como essa deve ser muito reconfortante.

 

Competência, muito além da truculência

 

Não gostaria de dar a impressão aqui que defendo a agressividade em função dos resultados. O assunto voltou recentemente às manchetes com as notícias sobre o comportamento destemperado de alguns CEO de empresas de destaque. Apenas gostaria de pontuar o quanto o poder da visão e da competência podem gerar patrimônio de confiança e aglutinar esforços.

 

Steve Jobs é como um espécime raro para um biólogo: a oportunidade  de avançar no nosso conhecimento sobre o que funciona na liderança. Neste momento em que, mais do que nunca, precisamos de líderes visionários, capazes de nos conduzir pela incerteza, Steve Jobs é uma grande lição. 

Marcelo Egéa

Sócio-Diretor

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