ARTIGO - Liderando a Inovação

Você pode promover ambientes mais criativos.

Compreendendo a semente da inovação

 

Um líder deve ter em mente desenvolver os ativos da empresa, o máximo que consiga, diariamente. Isso inclui potencializar o ativo humano, transformando ideias em valor. Nesse processo todos ganham: a empresa inova (e oferece produtos e serviços com maior chance no mercado) e as pessoas desenvolvem habilidades e potencializam seus talentos. Daí a importância de aprender a criar condições ideais para que a inovação aconteça. 

 

Porém, muitas vezes, até sem perceber, os líderes fazem o oposto, criando barreiras ao processo criativo. As empresas estão conscientes de que o ativo humano é um diferencial. Muitos dos projetos que estou envolvido buscam desenvolver postura de liderança que valorize o potencial humano, motivando, engajando e inovando, integrada à estratégia e objetivos da organização. Sabemos que todos os perfis pessoais tem seu lado positivo e o seus desafios. Pessoas com muita tendência para a ação são ótimas para enfrentar períodos de crise, desbravando e superando obstáculos sem perder o foco. Por um outro lado, estes líderes carecem de escuta ativa, de habilidade de abrir diálogos, permitindo que novas ideias e pontos de vista divergentes se manifestem e prosperem, dentro de um processo saudável de discussão. É isso que chamamos de semente do processo de inovação.

 

Quem são os líderes inovadores

 

Em relação às empresas brasileiras é preciso entender de que líderes estamos falando. A grande maioria das empresas no Brasil tem entre 01 e 05 funcionários. Temos um universo bastante grande de pequenos negócios, com um impacto socioeconômico considerável. Somente há alguns anos (talvez nos últimos 10 anos) o empreendedorismo entrou no vocabulário do brasileiro. Esses pequenos negócios, a maioria de subsistência, está bem distante de valorizar a inovação como conceito. No entanto, estes empresários se desdobram para fugir de todos os obstáculos do dia a dia para sobreviver. É preciso ter bastante jogo de cintura e criatividade para enfrentar o ambiente hostil dos negócios por aqui. São inovadores por instinto, para se manterem vivos. No outro extremo temos as grandes empresas, nacionais e multinacionais. Querem se diferenciar, resistir ao avanço da concorrência e também ganhar mercado internacional. Cada uma à sua maneira está buscando formas de se reinventar, treinando e desenvolvendo seus líderes atuais, trazendo cabeças novas, inserindo processo formais de inovação em suas áreas-chave. É um grande esforço de pensar e fazer diferente, de lutar com questões culturais e comportamentos já arraigados. No meio desses dois extremos temos as novas empresas com espírito empreendedor moderno, nascidas das aceleradoras e incubadoras, e inspiradas pelo sonho de se tornarem sucessos como a 99 Táxi ou o próximo Google. Não são apenas de tecnologia mas usam a tecnologia como parte importante da sua equação. Esses empresários - na sua maioria jovens ainda universitários ou recém graduados - já criam suas empresas olhando inovação como o coração de seus negócios. Para eles inovar não é algo a mais e sim o próprio negócio. Alguns desses profissionais, quando abrem mão do seu sonho de empreender sozinhos (por necessidade de sobrevivência ou por convicção), acabam se tornando talentos importantes para as grandes empresas, pois entram no mundo empresarial tradicional enxergando o mundo dos negócios com outros olhos. 

O líder inovador em ação

 

Em qualquer posição que você esteja, é possível ter uma atitude que facilite a inovação. Algumas das atitudes-chave são:

  1. Abra espaço na sua agenda diária para ouvir pessoas que estejam completamente fora do seu universo de trabalho, conhecer suas iniciativas, oferecer recursos e apoiar ideias não-tradicionais sem barreiras ou críticas. Às vezes o simples fato de abrir sua agenda para encontrar uma pessoa ou grupo pode ser o catalisador de grandes ideias;
     

  2. Torne sua área permeável à circulação de novidades, independentemente de as colocar em prática ou não. Edward DeBono, autor de vários livros sobre criatividade, defende que devemos discutir ideias absurdas, sem medo, como parte do dia a dia, pois é um elemento essencial para que a inovação floresça. Faz sentido: inovação é uma forma nova de ver as coisas. Até que se torne realidade, parece uma coisa absurda, simplesmente porque ninguém nunca tentou. Isso não requer nenhuma tecnologia sofisticada;
     

  3. Comece se perguntando "quais são os meus paradigmas, as verdades que eu mesmo considero absolutas e imutáveis?" Depois amplie, fazendo a mesma pergunta para os principais líderes da empresa. Seu maior desafio será fazer com que essa alta administração seja capaz de questionar a si mesma. No bestseller "A Lógica do Cisne Negro", Nassim Nicholas Taleb descreve onde começa a cegueira que embaça a nossa visão criativa: o passado. Ele nos explica que o passado parece trazer lições imutáveis, que devem ser aprendidas e respeitadas, mas é uma ilusão. Quando algo inesperado acontece, nossa reação natural e humana é buscar um sentido, justificar e tentar provar que os indícios já estavam presentes e poderiam ter sido vistos por alguém mais atento. Mas isso é apenas um artifício racional, que nos faz sentir mais seguros. Como se prevenir contra isso? Permitindo-se fazer a pergunta "E se…” mais vezes diante dos problemas, por mais absurda que a pergunta possa parecer. O ambiente corporativo não permite mais verdades absolutas;
     

  4. Permita que a sua Inteligência Emocional (IE) “converse” com seu Eu Racional. A IE  potencializa as capacidades técnicas, já que tudo que um profissional precisa fazer dentro da empresa o coloca em contato com outras pessoas, exigindo interação e ponderação emocional. Colocando atenção nas emoções que sentimos ao enfrentar os problemas do dia a dia, conseguimos perceber quando o medo, a insegurança e todos os demais sentimentos negativos que emergem diante de uma ideia nova estão nos ameaçando. Os sentimentos nascem nos nossos instintos e são uma reação a uma possível ameaça. Na maioria das vezes essa ameaça não existe de fato - é uma reação irracional. Reconhecer que o sentimento existe, mas que é irracional e desmedido para a situação, permite avaliar as coisas com mais isenção;
     

  5. Desapegue-se das funções técnicas e permita que sua equipe encontre novas formas de fazer as coisas. Chefes que "não largam o osso" e se mantêm fixados no seu conhecimento técnico, não conseguindo fazer a transição da autogestão para a gestão de outros, perdem a dimensão do que é realmente o seu trabalho. Quanto mais alto na hierarquia da liderança a pessoa está, mais gerencial é seu trabalho, em detrimento do aspecto técnico. Anos atrás, um presidente de uma montadora fez uma aposta bem-humorada com seus liderados, dizendo que era capaz de montar um caminhão sozinho. Demorou mais do que um técnico demoraria, mas conseguiu. Por que ele fez isso? Talvez aquela cultura valorizasse muito a questão técnica e ele, para ganhar o respeito da equipe, quis provar que era capaz. Não há dúvida que gestão e liderança são universos distintos, mas com pontos em comum. Quando a IBM começou a sua transição entre empresa de hardware para empresa de soluções, no final dos anos 90, as pessoas com o histórico técnico sofreram muito. Aqueles que conseguiram se desapegar da técnica, para compreender o que estava por trás dela tiveram mais chances.

 

Para começar basta o primeiro passo

 

Refletir sobre os paradigmas que descrevi acima o fará mais sensível à questão da inovação, abrindo espaço para o novo. Se conseguir envolver a alta administração, o processo será muito mais efetivo. A partir daí, criar espaços independentes, onde ideias diferentes e disruptivas possam ter mais chances de germinar e crescer - com gente da casa ou de fora dela - será um desdobramento natural. Algumas empresas têm preferido fazer isso com estruturas físicas completamente apartadas da estrutura tradicional, (ex. o Cubo do Itáu-Unibanco). Isso evita que o pessoal dedicado ao negócio tradicional sinta-se ameaçado e reaja negativamente ao novo. Na medida que as ideias se tornem auto-sustentáveis, conquistando o respeito dos "irmãos mais velhos" e bem sucedidos, ganham o direito de sentar no banco da frente. É uma forma mais inteligente de lidar com a resistência ao novo. Afinal de contas, estamos falando de gente. 

Marcelo Egéa

Sócio-Diretor

SerTotal - www.sertotal.com 

Foto by Daria N - Epicantus

Este artigo é propriedade da SerTotal.
Você pode reproduzi-lo, desde que mencione a autoria e insira o endereço do nosso site. 

 

São Paulo | Brasil 

2018 SerTotal