ARTIGO - Dominando Nossas Emoções

Admitir que somos em grande medida irracionais é o primeiro passo para evoluir no tão sonhado equilíbrio emocional. 

É provável que você já tenha sentido o poder devastador do medo sobre seu desempenho: preparou-se para uma apresentação importante e na hora "h" congelou. Ou talvez já tenha visto um colega, entusiasmado com o que considerava uma grande ideia de negócio, perceber depois de pouco tempo que foi otimista demais. Também pode ter sido vítima da ira de um colega de trabalho, que o via como uma ameaça e o agredia em todas as reuniões de equipe. 

Nenhuma novidade. É apenas a (previsível) irracionalidade humana. Dan Ariely em seu livro "Previsivelmente Irracional" explica como nossa ilusão de racionalidade é um prato cheio para marqueteiros espertos (e às vezes mal-intencionados). Mas como saber disso pode, além de nos prevenir para não comprar por impulso, evitar que a falta de controle sobre as emoções estrague nossa chance de fazer bonito em uma reunião importante?

Um animalzinho bem treinado

A vantagem evolutiva que nos colocou à frente dos demais animais permitiu inúmeras façanhas tecnológicas, apoiadas por capacidades cognitivas impressionantes. Porém, essa capacidade foi acoplada sobre toda uma infraestrutura neurológica primitiva e instintiva que já existia, herança de nossa origem animal. 

O centauro da mitologia grega, meio humano e meio animal, indica que essa verdade já era conhecida há pelo menos 5 mil anos. Ter acumulado conhecimento sobre a física e a química que nos cerca não mudou esse cenário. A nossa herança primitiva e animal está ancorada por dois fortes mandatos: sobreviver e garantir a preservação da nossa espécie. Por mais que nossa mente racional esteja habilitada para experimentar elevados ideais, nossas emoções básicas - medo, raiva, alegria e tristeza - são a base bioquímica do nosso corpo físico, o palco onde nossa mente racional está apoiada. E isso faz muita diferença quando o assunto é controlar nossas emoções.

 

Como costumo dizer em meus cursos, somos animaizinhos bem treinados, mas nos descontrolamos facilmente quando algo é percebido pelos nossos instintos como sendo uma ameaça, nem que seja levemente.

 

Mais de 200 enganações programadas

Nosso cérebro é um campo minado, cheio de armadilhas. Muitos neurocientistas afirmam que é comum que os "sapiens" com a mais sofisticada formação acadêmica sejam os mais fáceis de iludir. Trocando em miúdos: nossa presunção de racionalidade é um dos nossos maiores inimigos. Por que isso acontece?

Viés inconsciente é o termo técnico para os atalhos que nossa mente usa para economizar energia e facilitar o processamento de uma avalanche de dados que chegam através dos nossos cinco sentidos. Mas a economia e a velocidade têm um preço: conclusões precipitadas, desprezo a informações relevantes e interpretações tendenciosas e viciadas. Para se ter uma ideia do tamanho da encrenca, em uma compilação dos vieses inconscientes realizada em 2006, foram listados mais de 200! 

Quando o assunto é evitar ameaças, velocidade e eficiência são primordiais. Por isso os vieses inconscientes contam tanto. É fácil para nossos instintos assumir o controle quando tiramos conclusões precipitadas com informações distorcidas e tendenciosas. A ordem é evitar os riscos e maximizar as recompensas. 

A força da natureza

 

Terremotos, furacões e tsunamis são exemplos do poder da natureza, contra os quais a nossa poderosa tecnologia é frequentemente impotente. O mesmo acontece quando lidamos com nossas emoções. Como as demais forças da natureza, elas são muito poderosas e cheias de truques. 

Nossos instintos, desenvolvidos para garantir nossa sobrevivência e preservar nossa espécie, já tinham tido sua eficiência testada milhões de vezes antes que nossa racionalidade fosse inventada pela evolução. Mesmo depois de terem se fundido num único corpo, o que a neurociência tem provado é que, na maior parte do tempo, quem comanda o espetáculo são as emoções e os instintos, não a razão. A sensação de que é o contrário é apenas um truque da nossa psiquê. 

Por isso, alguns especialistas do assunto defendem que as técnicas para controlar emoções deveriam ser ensinadas desde a pré-escola (algumas instituições têm ensinado meditação para crianças a partir de 05 anos com excelentes resultados). 

Aceite o fato e aprenda a lidar com seu cérebro

 

Talvez devêssemos nos acostumar e treinar a nós mesmos para admitir, quando confrontados com uma situação estressante: "isso é apenas efeito do meu cérebro tentando me proteger". 

Existem muitas outras estratégias, testadas e eficazes, que podem ajudar a controlar emoções. Ai vão algumas sugestões:

  1. Aprenda e pratique regularmente uma técnica de relaxamento ou meditação. Prefira as que possa usar mesmo quando estiver cercado de gente (durante uma reunião, por exemplo);

  2. Desafie seus diálogos internos. Em geral são exagerados e cheios de "pré-coneitos" enviesados. Pensamentos que começam com "sempre", "nunca", "dificilmente", "é óbvio", são sinais de que seus instintos podem estar assumindo o controle;

  3. Encontre um jeito de descarregar o estresse. Nosso corpo é a morada da nossa alma. E ele é pura química. As emoções deixam rastros em nosso sangue, hormônios que podem ser eliminados com exercícios físicos. Pode ser um esporte que você goste, a prática de artes marciais, ginástica ou técnicas como as ensinadas pelos terapeutas treinados em Análise Bioenergética, muito eficazes para "descongelar" a memória corporal das emoções;

  4. Escolha um hobby e pratique. O tempo dedicado a atividades prazerosas tem o poder de nos fazer desligar dos fatores estressantes que retroalimentam nossos alertas emocionais.

 

Evoluir no controle emocional é muito mais fácil quando entendemos nossa natureza dual. Também quando aprendemos técnicas testadas para manter as emoções sob controle. Afinal de contas, são apenas nossos instintos tentando nos proteger, correto?

Desejo a você uma vida cheia de alegria. 

Marcelo Egéa

Sócio-Diretor

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