ARTIGO - A alquimia de ser exigente

Como líderes de alto nível conseguem ser exigentes e ao mesmo tempo respeitados e lembrados com carinho.

O dilema dos líderes exigentes
 

Alguém já disse que o esporte mais praticado (e desestressante) do mundo é atirar pedras nos chefes. Não faltam histórias de patrões mal-humorados, desrespeitosos e impositivos. Isso reflete a difícil tarefa de liderar pessoas, na tentativa de dar conta dos desafios que o mundo nos impõe. 

 

No entanto, a observação comprova que grandes lideres são exigentes, levando seus colaboradores ao limite de suas capacidades e, ainda assim, mantendo-os engajados e motivados. Ao contrário, chefes condescendentes raramente são lembrados e reconhecidos como líderes inspiradores, mantendo suas equipes desmotivadas e sem brilho.

 

Em que momento a alquimia acontece, transformando a exigência que desmotiva e afasta em ouro, um elixir poderoso para o desenvolvimento e a motivação?

 

Pessoas, Objetivos e Processos

 

Para responder a essa pergunta é preciso compreender os três elementos centrais da questão: 

  • Pessoas: com suas personalidades, talentos, expectativas e momento de vida diferentes;

  • Objetivos: que podem ser mais ou menos arrojados, medidos de forma clara ou não, mais ou menos estimulantes;

  • Processos: que podem ser mais ou menos estruturados e que, apesar de diferentes, chegam aos mesmos resultados. 

 

Apesar de existir na maioria das vezes um conjunto de processos formalizados (ou uma expectativa sobre eles), há um espaço enorme para a inovação e a flexibilidade. É nesse espaço que a alquimia acontece, permitindo que gestores se transformem em líderes, conquistando o respeito e a admiração de suas equipes. 

 

Alquimia #1: Potencializar talentos

Precisamos compreender o que significa potencializar talentos e revisar o que diz o senso comum a respeito. Normalmente associamos pessoas talentosas a algo extraordinário, raro e quase inatingível. Isso de fato acontece, quando alguém descobre e investe tempo e esforço em suas áreas de talento, elevando-as ao seu máximo potencial. O efeito é incrível e os resultados são acima da média. O problema é que, como alguns pesquisadores descobriram, pouca gente sabe quais são seus talentos. A Gallup Consulting, que vem estudando o tema há muitos anos, diz que menos de 30% da população sabe quais são os seus. Mesmo sabendo, poucos conseguem coloca-los em prática na sua vida cotidiana. A definição de talento para a Gallup Consulting também é diferente do senso comum: "padrão de comportamento, pensamento ou sentimento que pode ser usado produtivamente”. Se considerarmos que a personalidade de uma pessoa é exatamente isso (padrão de comportamento, pensamento ou sentimento), então qualquer um de nós tem talentos. Esse raciocínio é genial e abre um horizonte infinito de possibilidades para o crescimento humano, tanto profissional quanto pessoal. Para o nosso propósito aqui, o que precisa ser ressaltado é: um desafio em uma área de talento é estimulante e motivador, enquanto o mesmo desafio pode ser um pesadelo difícil de suportar, se envolver uma área onde o talento está ausente. A ideia central da proposta, que é adotada hoje por grandes empresas em todo o mundo, é tirar o que as pessoas têm de melhor, ao invés de tentar muda-las. Ajudar as pessoas a descobrir seus talentos significa buscar aquela coisa que para elas é divertida e estimulante, enquanto para outras é um fardo difícil de carregar. Depois de encontrar, permitir que invistam mais tempo nelas. A Gallup Consulting identificou 34 padrões de talentos. Os mais fortes (normalmente olhamos os 05 primeiros) costumam definir os focos. Pessoas atuando em suas áreas de talento na maior parte do tempo são mais motivadas, felizes, engajadas e produtivas, além de ajudar a criar um ambiente mais positivo em seu entorno.  

 

Alquimia #2: Ressignificar os objetivos

Quantas pessoas você conhece que levantam da cama todos os dias dizendo: “hoje vou fazer tudo errado; quero me dar mal e ser repreendida!”? As pessoas querem ser elogiadas, sentir que são admiradas e estão cumprindo com as expectativas. É instintivo, pois garante a sobrevivência (mantem o emprego) e aumenta a autoestima (status). Quando as pessoas conhecem bem o que se espera delas, como isso será medido e qual a chance que têm de chegar a um bom resultado, a sua energia é canalizada para aumentar as chances de que isso aconteça. Líderes inteligentes entendem isso, criando as condições para que as pessoas não se desmotivem antes da largada. A curva de resposta aos desafios (ou zona de tensão criativa) é aquela que indica o melhor ponto de exigência, para uma dada pessoa (com talentos específicos), na tarefa em um dado momento e contexto. Pouca exigência não explora os talentos e, portanto, é desestimulante, criando um sentimento de que talvez não estejam reconhecendo seu potencial. Por outro lado, exigência exagerada estica a corda além daquilo que a pessoa sente que é possível. O ponto ótimo do desafio é onde o suor existe - demonstrando que o talento está sendo colocado à prova - sem deixar que o medo da derrota domine. Como pessoas não têm um painel de controle que indique com clareza estes limites, a única forma de descobrir é buscar compreender as pessoas, observando e ouvindo com atenção, respeito e sem pré-julgamentos. Estabelecer as expectativas sobre objetivos de forma clara, com indicadores explícitos, na zona de tensão criativa para os talentos que a pessoa valoriza, cria resultados acima da média, pessoas felizes com seus desempenhos e engajados com seus propósitos pessoais. 

 

Alquimia #3: Adaptar os processos às pessoas

Cada um de nós tem histórias engraçadas sobre observar pessoas fazendo algo e pensar “puxa, eu faria isso muito mais fácil e completamente diferente!”. Não é raro que essa experiência seja acompanhada de um leve tom de ironia, de menosprezo pelo outro, que os mais sábios já perceberam que é incoerente e pouco verdadeiro. Se de fato é normal que tenhamos orgulho de nosso jeito de fazer as coisas, é igualmente verdade que nosso sentimento de superioridade é um grave erro de percepção, falta de humildade e até de inteligência. A história está repleta de casos de pessoas e organizações que foram superadas pela cegueira provocada pelo orgulho e excesso de confiança em suas competências e vantagens. Líderes sábios e inteligentes respeitam os conhecimentos e habilidades de seus colaboradores, em especial nas tarefas em que possuem talentos. Aliás, uma das formas de identificar talentos é exatamente observar atentamente as pessoas para identificar a capacidade que alguns possuem de enxergar detalhes, nuances, beleza e possibilidades em coisas aparentemente comuns. É isso que os leva a aprofundar e melhorar todos os dias, de forma incansável, em coisas que para os demais é apenas rotina. O talento consegue fazer isso. Por essa razão, abrir um espaço para que as pessoas que você lidera sugiram processos alternativos deveria ser um hábito para todo líder. Existem inúmeras oportunidades de mudanças na forma de fazer as coisas, que não estão sujeitas a nenhuma restrição e só existem pela força do hábito. Permitir que as pessoas coloquem em prática estas ideias faz com que elas sintam orgulho de si mesmas, respeitadas e ouvidas, além abrir espaço para seus talentos, com mais resultados, motivação e engajamento. 

 

Os esotéricos nos contam que a verdadeira alquimia não está na fantasia da pedra filosofal, que transforma qualquer coisa em ouro. Os alquimistas estavam na verdade em busca da transformação interior, em tornar a si mesmo e aos outros seres humanos melhores. Talvez seja isso que todos devêssemos fazer, em especial os líderes. Ajudar as pessoas a crescer, desenvolver seus talentos, atingir seu máximo potencial, vivendo uma vida plena.

Marcelo Egéa

Sócio-Diretor

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